Meninas brasileiras falam mais sobre dinheiro em casa e gastam com mais cuidado que meninos, mostra pesquisa. Veja o motivo — e como equilibrar isso na sua família.

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Domingo à noite, você senta pra fechar as contas do mês. Sua filha de 10 anos chega perto, curiosa, e acaba ouvindo por que sobrou menos esse mês. Seu filho de 8, do outro lado da sala, nem é chamado — “isso não é assunto dele agora”, você pensa, sem perceber que só pensou isso com ele.

Essa cena se repete, quase igual, em milhares de casas brasileiras — e tem nome: uma forma de falar sobre dinheiro que trata meninos e meninas de um jeito bem diferente, sem que ninguém tenha decidido isso de propósito.

O dado que ninguém espera

Uma pesquisa aplicada a mais de 23 mil estudantes brasileiros dentro do Pisa (a avaliação internacional de estudantes), usada pela Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF Brasil), encontrou um padrão curioso: meninas conversam sobre dinheiro com os pais quase todos os dias com bem mais frequência que os meninos — 33,4% contra 23,6%. Elas também mostram mais controle na hora de gastar: quando não têm dinheiro pra comprar algo que querem, 16,8% simplesmente não compram, contra 12,9% dos meninos.

Isso não quer dizer que meninas nascem com um “faro” natural pra dinheiro. Segundo a AEF Brasil, a explicação mais provável está na rotina: meninas costumam estar mais perto do dia a dia doméstico — o mercado com a mãe, o boleto sendo pago na mesa — e acabam entrando nessas conversas quase sem querer. Os meninos, em muitas casas, simplesmente não são chamados pra essa mesma mesa.

E o dado mais importante vem logo depois: mesmo com essa vantagem das meninas, o Brasil como um todo ficou em último lugar num ranking internacional de competência financeira. Ou seja — ninguém está saindo bem dessa equação. Uma parte só está saindo pior que a outra.

Nem sempre é ensinar — às vezes é só gastar

O dinheiro que passa pelas mãos das crianças brasileiras também não é dividido de forma igual. Um levantamento da Abefin (Associação Brasileira de Educadores Financeiros), feito ao longo de três anos com 15 mil famílias com filhos entre 7 e 12 anos, mostrou que os pais gastam, em média, 30% a mais com meninas do que com meninos.

O motivo não é generosidade — é oferta de mercado. Segundo Reinaldo Domingos, presidente da Abefin, existem simplesmente mais produtos voltados pro público feminino: roupas, calçados, itens escolares, acessórios. E por volta dos 9 anos, as meninas costumam começar a se interessar mais por cabelo, unha e produtos de beleza, o que empurra os gastos ainda mais pra cima — um padrão que os pesquisadores às vezes chamam de “efeito Cinderela”.

Só que gastar mais com uma criança não é o mesmo que ensinar mais pra ela. Encher o guarda-roupa da filha com opções não é uma conversa sobre dinheiro — é só gasto. Educação financeira de verdade acontece quando a criança entende o porquê da escolha, não quando ela só recebe o resultado dela. O próprio presidente da Abefin defende que a orientação financeira deveria começar cedo pros dois lados — porque o problema de fundo não é o gênero, é deixar o consumismo se instalar sem ninguém perceber.

O que os meninos ficam de fora

Do outro lado do oceano, uma pesquisa americana com mil famílias (Giftcards.com, divulgada pela revista Fast Company) mostrou um padrão parecido, só que com o sinal trocado: os pais tendem a ensinar meninas a controlar gastos — acompanhar quanto gastam, montar um orçamento — enquanto ensinam meninos temas ligados a “construir patrimônio”. Até 61% dos meninos já tinham recebido uma explicação sobre pontuação de crédito antes do ensino médio, contra 46% das meninas. Meninos também recebiam mais informação sobre impostos e conta bancária.

O mesmo levantamento notou outro padrão: mães costumam puxar essas conversas com as filhas, e pais com os filhos. Na prática, isso significa que uma criança que convive pouco com um dos dois pode ficar sem metade do repertório — não por causa do gênero dela, mas por causa de qual adulto fala mais sobre dinheiro em casa.

Especialistas em educação financeira notam um padrão parecido nas tarefas domésticas: é comum meninos receberem mais por tarefas vistas como fisicamente mais pesadas (cortar a grama, por exemplo), enquanto meninas recebem menos por tarefas igualmente trabalhosas, só que menos “físicas”. A criança aprende, sem ninguém dizer isso em voz alta, que o valor do trabalho dela depende de quem o fez.

O ajuste não é tratar igual — é incluir os dois

A saída não é aplicar uma régua rígida, tipo insistir pra que meninos e meninas façam exatamente as mesmas tarefas do mesmo jeito. É garantir que os dois entrem na mesma sala quando o assunto é dinheiro.

Isso quer dizer: os dois ouvem quando você explica por que decidiu não comprar algo. Os dois participam quando a mesada é definida. Os dois aprendem, desde cedo e juntos, tanto a guardar quanto a fazer o dinheiro render — não um aprendendo só “economizar” e o outro só “crescer”.

E vale repetir: isso não é motivo pra culpa. Praticamente toda família cai nesse padrão sem perceber, porque ele vem de gerações antes da sua. O primeiro passo não é se cobrar — é só prestar atenção.

🔑 Na prática

  1. Na próxima decisão financeira real da casa — revisar a lista de compras, decidir se dá pra ir num passeio — chame os dois filhos, não só um.
  2. Preste atenção no verbo que você usa com cada um: é “guarda isso” pra um e “isso pode render” pro outro? Troque de lugar por uma semana.
  3. Se você paga por tarefa, reveja se o valor reflete o esforço — não o tipo de tarefa.
  4. Faça a mesma pergunta financeira pros dois, na mesma conversa, e deixe os dois responderem sem interromper.

Essa semana, no jantar, faça a mesma pergunta pros dois: “se você ganhasse R$ 50 agora, o que faria?” Não corrija, não compare os dois na hora — só escute. É bem provável que você descubra, ali na mesa, que andou ensinando dinheiro de um jeito pra um e de outro jeito pro outro, sem nunca ter decidido isso de propósito.

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